Os discursos modernos sobre o mal-estar e ajuda caracterizam-se por um nexo peculiar entre estas duas ideias. O mal-estar é frequentemente visto como uma das consequências do modo como a sociedade se organiza, e a ajuda como uma das responsabilidades da própria sociedade. Nesse nexo cabe, além disso, a ideia de que a própria ajuda se pode tornar, ela mesma, causa do mal-estar que visa aliviar. A percepção de que nos sistemas complexos, como o da sociedade contemporânea, cada tentativa de resolução de problemas origina novos problemas, parece cada vez mais alargada.
É neste contexto geral que se coloca a questão de saber se há lugar para uma ajuda especificamente filosófica, qual a sua natureza, valor, limites, e que "tecnologias" encontra para se exercer como actividade profissional.
Na literatura corrente sobre o chamado Aconselhamento Filosófico, é vulgarmente pressuposta a necessidade de recuperar certos aspectos da racionalidade prática típica do pensamento antigo, nomeadamente aqueles que dizem respeito ao que M. Foucault chamou "tecnologias do cuidado de si".
Raramente, porém, se detém a atenção sobre os pressupostos comunicativos destas tecnologias, pelo que se veicula a crença de que algumas formas de mal-estar podem ser "tratadas" na condição de que um sujeito se reencontre a si mesmo, redescubra a sua própria natureza, adeque o seu pensamento e modo de vida à estrutura ontológica do mundo e aprenda os princípios básicos da prudência.
Estes pressupostos, todavia, foram há muito refutados pela própria História e pela História da Ciência, e hoje não é possível apontar onde está aquilo a que se chamou "natureza humana", "verdade do sujeito," "objectividade do mundo", etc.
Isto é, o fundo ontológico sobre o qual o mundo antigo construiu a sua ética já não se encontra em lugar nenhum, pelo que as propostas de trabalho de Aconselhamento Filosófico que assentam em pressupostos desta natureza não passam de uma mitologia que nada mais tem a oferecer que uma simulação de realidade pela vã tentativa de fazer ressuscitar fantasmas.
Assim, o que deve ser investigado em primeiro lugar é o percurso pelo qual se chegou, no mundo moderno, à ideia de que é necessária e possível uma ajuda especificamente filosófica a certas formas de mal-estar a que a Ciência não dá resposta. Evidentemente, tal percurso não poderá ser traçado à revelia da própria História da Ciência moderna e, de certa forma, faz parte desse mesma História.
Sobre este assunto no debruçaremos ao longo dos próximos tempos.
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