22/02/2011

Ética, política, angústia e cuidado de si

Fala-se muito de ética hoje em dia, nomeadamente no campo da política, como uma ausência. M. Foucault questiona, nas aulas de 1983 ("Le gouvernement de soi et des autres") qual a governação de si mesmo que deverá servir de fundamento e de limite à governação dos outros.

Mas, se é justa a apreciação de que nos calhou uma política sem ética, devemos perguntar-nos pelas respectivas razões (em vez de nos lamentarmos ou de iniciarmos o juízo moral esquecendo a pergunta que lhe subjaz).

Será que numa sociedade complexa e funcionalmente diferenciada há ainda lugar para um pensamento ético capaz de dotar a sociedade de unidade e coerência? Poderá ser a política esse lugar de onde se vê a sociedade no seu todo, como que a partir do centro e de cima? E poderá o político, na sua função politica, ser identificado com o sujeito de pensamentos e acções éticas?

Teremos atingido uma fase histórica em que a sociedade, em muitos dos seus âmbitos e particularmente na política, já entrou em "auto-gestão"? E, se for esse o caso, ter-se-á reduzido o pensamento ético-político a cálculo de oportunidades e interesses, a pura táctica discursiva com vista à persuasão? Ou, numa melhor  hipótese, a um conjunto de "boas intenções" antecipadamente condenadas à frustração?

Mas, nesse caso, qual o estatuto que passa a convir à noção ético-política de "bem comum"?

Esta não é uma questão surpreendente, mas apenas um dos aspectos da grande contradição que é a experiência humana, em particular a grande contradição que o ser humano experiencia no seu contacto com os outros.

Mas é, sem dúvida nenhuma, também um dos problemas que o indivíduo deve enfrentar ao longo da vida, pois a suspeita da possibilidade de estar vivendo numa sociedade cuja política não pode contar com a ética não elimina a questão de saber o que perfaz uma vida boa nem a questão daquilo a que os antigos chamavam epimeleia heautou (cuidado de si), e parrêsia (cuidado dos outros) - pelo contrário, acentua-a, torna-a mais urgente e, eventualmente, mais angustiante, ou seja, interfere ao nível daquilo que a psicologia moderna mostrou estar no cerne da vida psíquica mas que Foucault - como muitos outros, antes e depois dele - mostrou não se reduzir à vida psicológica do indivíduo e ser um efeito da estrutura contraditória da experiência social e sua expressão e apoteose afectiva: a angústia.

Haverá lugar, na sociedade moderna e nas suas contradições, para uma "tecnologia de si", para uma técnica do cuidado de si que habilite o indivíduo a compreender e a lidar com a sua angústia?

Ou estará o tratamento da angústia definitivamente reduzido à terapêutica das suas formas mórbidas? Mas será que toda a experiência de angústia é patológica? E, nesse caso, será a própria sociedade uma espécie de corpo doente? E, por consequência, seriam a medicina e a psicologia do fenómeno mórbido apenas  sintomas dessa doença da sociedade?

E, de qualquer das formas, não estará ainda aqui, nesta última hipótese, o indivíduo com a sua experiência de mundo e com a inevitabilidade da contradição?

Pois bem, é preciso saber qual a forma de um saber acerca do mal-estar de que o indivíduo se possa munir (ou pelo menos esforçar-se para alcançar) para lidar com aquilo que - provavelmente mais do que qualquer outra coisa - lhe diz respeito: a sua angústia e as queixas que a partir dela se formulam. Mas saber que forma de saber é essa, precisamente, num mundo já alterado pela Ciência e pela Técnica modernas, e numa sociedade globalizada e funcionalmente diferenciada - e não na  idealização de uma ressuscitação do fantasma de um mundo antigo em que, supostamente, a ética e a prudência podiam prevalecer nas relações do indivíduo consigo mesmo e com os outros, repondo a harmonia da experiência apenas acidentalmente perdida (nem seria justo, para esse defunto mundo antigo, olvidar a intensidade da consciência trágica da existência).


Filipe M. Menezes

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